O que é doença renal terminal?
A doença renal terminal acontece quando os rins perdem cerca de 90% da sua capacidade de funcionar. Isso significa que eles não conseguem mais limpar o sangue de toxinas, fluidos em excesso e resíduos metabólicos. A condição é diagnosticada quando a taxa de filtração glomerular (GFR) cai abaixo de 15 mL/min/1,73 m². Sem tratamento, a doença renal terminal é fatal. A maioria dos casos é causada por diabetes (44%) ou hipertensão (28%), mas outras causas incluem doenças glomerulares, lúpus, doença policística dos rins e exposição a metais pesados ou medicamentos tóxicos.
Diálise: o que é e como funciona?
Quando os rins falham, a diálise é o tratamento mais comum. Ela substitui parcialmente a função dos rins, removendo resíduos e líquidos do sangue. Existem dois tipos principais: hemodiálise e diálise peritoneal.
A hemodiálise é feita geralmente em centros médicos, três vezes por semana, por 3 a 4 horas por sessão. O sangue é bombeado por uma máquina que o filtra e o devolve ao corpo. O fluxo sanguíneo é mantido entre 300 e 500 mL/min, e o fluxo do líquido de diálise varia entre 500 e 800 mL/min. Para que isso funcione, é preciso criar uma fístula arteriovenosa - uma conexão cirúrgica entre uma artéria e uma veia - pelo menos 6 a 12 meses antes de começar a diálise. Isso garante que a veia fique forte o suficiente para suportar as agulhas.
A diálise peritoneal é feita em casa. Usa-se a membrana abdominal (peritônio) como filtro. O paciente enche o abdômen com um líquido de diálise, que absorve toxinas e fluidos, e depois drena. Existem duas formas: a diálise peritoneal ambulatorial contínua (CAPD), que exige 4 trocas por dia, e a diálise peritoneal automatizada (APD), que acontece durante a noite com uma máquina.
Os pacientes em diálise precisam manter níveis rigorosos de fósforo (3,5 a 5,5 mg/dL), cálcio (abaixo de 9,5 mg/dL) e hormônio paratireoide (PTH). Muitos precisam de vitamina D ativa, como calcitrol, para evitar problemas ósseos e vasculares. O tempo de tratamento é alto: 12 a 16 horas por semana só em sessões, sem contar deslocamento. E ainda há restrições alimentares rígidas - menos sal, potássio e líquidos.
Transplante renal: a melhor opção?
Sim. Para a maioria dos pacientes, o transplante renal é a melhor escolha. Estudos mostram que quem recebe um rim transplantado tem 68% menos risco de morrer nos próximos cinco anos em comparação com quem fica em diálise. A taxa de sobrevivência após cinco anos é de 83% para transplantados, contra apenas 35% para pacientes em diálise.
Transplantes de doador vivo têm os melhores resultados: 95,5% dos rins ainda funcionam após um ano, e 86% após cinco anos. Já os transplantes de doador falecido têm 93,7% de sucesso no primeiro ano e 78,5% aos cinco anos. A sobrevivência do paciente também é maior: 90,5% dos transplantados com rim de doador vivo vivem cinco anos ou mais, contra 84,2% com rim de doador falecido.
Transplantes preemptivos - feitos antes de começar a diálise - têm ainda melhores resultados. Mas apenas 5% dos pacientes que entram em diálise foram avaliados para transplante antes disso. A recomendação médica é que a avaliação comece assim que a taxa de filtração cair abaixo de 30 mL/min/1,73 m². Isso dá tempo para exames, tratamento de problemas como pressão alta ou diabetes, e encontrar um doador compatível.
Após o transplante, o paciente precisa tomar medicamentos imunossupressores pelo resto da vida. Esses remédios, como tacrolimus, ciclosporina, micofenolato e corticoides, impedem que o corpo rejeite o novo rim. Mas eles também deixam o paciente mais suscetível a infecções. O custo mensal desses medicamentos varia entre US$ 1.500 e US$ 2.500 - um peso financeiro, mas menor que o custo anual da diálise, que pode ultrapassar US$ 90.000 por paciente.
Qualidade de vida: transplante vs. diálise
A diferença na qualidade de vida é enorme. Um estudo de 2021 mostrou que pacientes transplantados pontuaram 82,4 em uma escala de 100 pontos na avaliação de qualidade de vida relacionada à doença renal (KDQOL-36). Pacientes em hemodiálise pontuaram apenas 53,7. Os que fazem diálise peritoneal ficaram em 67,2.
Transplantados têm mais liberdade: podem viajar, comer mais variedade de alimentos, não precisam se programar para sessões de diálise e têm menos hospitalizações - cerca de 50% a menos por ano. Muitos voltam a trabalhar, praticar esportes e cuidar da família normalmente.
Já quem está em diálise vive com limitações constantes. O tempo gasto em tratamento, a fadiga, as restrições alimentares e os efeitos colaterais dos medicamentos pesam na vida emocional e social. A depressão e a ansiedade são comuns nesse grupo.
Quem pode fazer transplante?
Nem todo paciente é candidato. Contraindicações incluem idade avançada (acima de 75 anos) com múltiplas doenças, insuficiência cardíaca grave (fração de ejeção abaixo de 25%), câncer ativo ou recente (nos últimos 2 a 5 anos), demência, transtornos mentais não controlados, ou uso contínuo de álcool ou drogas.
Além disso, há desigualdades. Estudos mostram que pacientes negros têm menos chances de serem encaminhados para avaliação de transplante, mesmo quando têm os mesmos níveis de doença renal. Um estudo chamado RaDIANT, em 2013, mostrou que após intervenções educacionais para médicos e pacientes, as indicações de transplante entre negros aumentaram 40%, enquanto entre brancos subiram 22%. Isso mostra que o problema não é clínico - é sistêmico.
Desafios e avanços
Atualmente, mais de 90.000 pessoas estão na fila de transplante renal nos EUA. Só 27.000 transplantes são feitos por ano. Isso significa que muitos esperam anos - em média, quatro anos - por um rim. Enquanto isso, muitos morrem na fila.
Mas há progresso. O número de transplantes de doadores vivos aumentou 18% entre 2018 e 2022. A legislação de 2017, chamada 21st Century Cures Act, permitiu o uso de doadores com critérios expandidos - rins de pessoas mais velhas ou com histórico de hipertensão - aumentando o pool de órgãos em 15%.
Programas como o Kidney Care Choices Model, lançado em 2022 pelo CMS, incentivam médicos a encaminhar pacientes antes da diálise. O Medicare cobre o tratamento de doença renal terminal desde o quarto mês de diálise e por 36 meses após o transplante. Isso cria pressão para que os sistemas de saúde priorizem o transplante - não só por saúde, mas por custo.
O NIH investiu US$ 157 milhões até 2026 no Projeto de Medicina Personalizada Renal, que busca tratamentos mais precisos e individualizados. Isso pode mudar o futuro: em vez de só substituir rins, talvez um dia consigamos regenerá-los.
O que você pode fazer?
- Se tem diabetes ou hipertensão, controle rigorosamente. Essas são as principais causas de doença renal terminal.
- Se já tem doença renal crônica, pergunte ao seu médico sobre avaliação para transplante assim que a GFR cair abaixo de 30 mL/min/1,73 m².
- Se tem um familiar ou amigo disposto a doar, converse com uma equipe de transplante. Doadores vivos não precisam ser parentes - podem ser amigos, colegas, até desconhecidos.
- Se está em diálise, não desista. A diálise salva vidas. Mas também é um sinal para agir: o transplante ainda é a melhor chance de voltar a viver de verdade.
Frequentemente perguntado
A diálise pode curar a doença renal terminal?
Não. A diálise substitui a função dos rins, mas não os recupera. Ela mantém a pessoa viva, mas não é uma cura. O único tratamento que pode restaurar a função renal é o transplante.
Quanto tempo dura um rim transplantado?
Em média, um rim de doador vivo dura cerca de 15 a 20 anos. Um rim de doador falecido dura em torno de 10 a 15 anos. Muitos pacientes acabam precisando de um segundo transplante, mas mesmo assim, a vida com um rim transplantado é mais longa e saudável do que com diálise.
Posso doar um rim mesmo sendo saudável?
Sim. Pessoas saudáveis com sangue compatível e sem doenças crônicas podem doar um rim. A cirurgia é segura, e a maioria dos doadores volta às atividades normais em 4 a 6 semanas. O rim restante se adapta e assume toda a função. A longo prazo, o risco de doença renal em doadores é muito baixo - similar ao da população geral.
Por que tantos pacientes negros não recebem transplantes?
Não é por falta de necessidade. É por falta de acesso. Estudos mostram que médicos muitas vezes não encaminham pacientes negros para avaliação de transplante, mesmo quando são candidatos. Há também barreiras sociais: falta de informação, desconfiança no sistema de saúde, dificuldade de transporte e menor rede de apoio. Programas de educação e intervenção já mostraram que, com apoio, essas disparidades podem ser reduzidas.
O que é diálise domiciliar e é mais fácil que a hospitalar?
A diálise domiciliar - tanto hemodiálise quanto peritoneal - permite que o paciente faça o tratamento em casa. Isso oferece mais flexibilidade, menos deslocamento e, para muitos, menos estresse. A hemodiálise em casa exige treinamento e ajuda de um cuidador, mas pode ser feita mais vezes por semana, o que melhora os resultados. A peritoneal é mais simples de fazer sozinho. Ambas são alternativas viáveis e, em muitos casos, superam a diálise em centro.
Próximos passos
Se você ou alguém que você conhece tem doença renal crônica, não espere até chegar à fase terminal. Procure um nefrologista. Faça exames de rotina: creatinina, GFR, urina. Se a função renal estiver caindo, peça avaliação para transplante. Se estiver em diálise, converse com sua equipe sobre opções de tratamento domiciliar e candidatura a transplante. O tempo é seu maior aliado - e o transplante, sua melhor chance de viver sem limites.
Flávia Frossard
fevereiro 4, 2026 AT 13:59Ruan Shop
fevereiro 5, 2026 AT 18:21Thaysnara Maia
fevereiro 6, 2026 AT 20:35Bruno Cardoso
fevereiro 8, 2026 AT 02:46Emanoel Oliveira
fevereiro 9, 2026 AT 01:10isabela cirineu
fevereiro 10, 2026 AT 23:47Junior Wolfedragon
fevereiro 12, 2026 AT 04:15Rogério Santos
fevereiro 13, 2026 AT 12:16Sebastian Varas
fevereiro 15, 2026 AT 00:16Ana Sá
fevereiro 16, 2026 AT 20:27Rui Tang
fevereiro 17, 2026 AT 10:25Virgínia Borges
fevereiro 19, 2026 AT 09:05Amanda Lopes
fevereiro 20, 2026 AT 01:25Gabriela Santos
fevereiro 21, 2026 AT 06:23